domingo, 7 de novembro de 2010

Rabiscos

Constituo-me
através de rabiscos
Lapsos de ser
dispersados em papéis

Perdidos em cadernos
hibiscos cruéis
distrações de invernos
verdades de verões
lampejos de eternas
outonadas sensações
Que nos levam
a um sim de primavera
que encerram em flores
o fim de uma era

Constituo-me rabiscando
através dos riscos de ser
enceno raptos perversos
pelo sabor de viver
mais uma palavra
um outro verso
um amor a se arder

Constituo-me rabiscando
apaixonado pelo que invento
Para entender criando o que me aflige sem razão
Para amar a tudo sem saber a intenção

Rabisco para tudo
Poesia é uma busca
intensa viagem brusca
pelas flores e espinhos da palavra,
VIDA...

chuva na sala

Na sala de aula chuva
sobre a mesamarrom de madeiraterra
um relógio amarelo sorri garoa
sobre um vento de olhos dispersos
seria ambrosia pensar na utopia
de ponteirosentido a primavera
seria amora pensar na história
fugindo a memória desertando um sertão
sorrio pro mundo apontando ilusão
fiapos de manga entre meus dentes
amarelo ardente sonhando azul
nalgum lugar o pôr do sol soletra
seus inventos de insano poeta
sobre o tempo atento de um florescer sonoro

Lá vai

o sentido do vento tem algo
a ver com o horizonte
uma página nova se abrindo ao acaso
o desenho fatal dos lábios da amada
no rumo incerto de uma praia tropical

a cor do mar
com sua turquesa presença
tem certamente algo que nos lembra

o dia de naufrágio
que nos trouxe a esse estágio
de tão alucinada navegação

-Lá vai o capitão do navio
Em sua veste de Madrugada
Ausenta-se do noturno ofício
E por instantes sustenta o vício
De fazer da Lua sua amada

Multiplicidade dos cantos concebidos sobre as impressões à quádrupla razão

I

Cantos insoles
solenemente invadem meus ouvidos ébrios,
segundos psicodélicos.

Apenas o som cotidiano de um tempo passado,
vida que corre, que vai e que vira,
de repente desatina num compasso desritmado.
A vida auto-falante, de filtro amarelo, cabelo amarrado.
Ela sentida ao embalo de uma canção,
repentina vida
concebida no poema plural e sativo
que aos poucos vem, vindo a quatro mãos.


II

Peixes de rio
em nossos corpos descansam,
nas ondas de frequência
onde canta a voz etéria.
Corações jovens balançam, na mecânica matéria...

temos um vislumbre aquoso de um encontro auspicioso.
um instante, um mergulho aos olhos do espírito.
Um gole d'água, uma idéia em princípio.
Uma viagem em seu início no solstício da ilusão
e em cada parte forma-se a corrente,
conecta vinil e respira inspiração,
de ideia em ideia,
pensamento em pensamento,
faz-se a torrente. de pingo em pingo,
o clube na agulha faz um respingo.
Aretha fagulha no leito de um rio,
um blues no coração colore a oração
de meus absurdos tímpanos mudos,
no vago sentido obscuro
de buscar o amor.


III
...Minha vida de fósforo folk
acende o mundo esta noite.
meu dia é véu,
veneno de manto sem estrelas,
sem constelação ou vulva morena.
costuro sem agulha meu coração banhado em éter,
lambe gilete e dispensa catéter...

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Fluxo

“o sagrado instinto de não ter teorias”
B. Soares


Às vezes acredito que o meu problema
são verdades absolutas que me assolam
momentos que vivi e senti de maneira tão intensa
que o leito confuso do rio de minha vida
abalou-se por inteiro,
eternamente.

Como se uma tempestade derramasse
sua chuva prazeirosamente
na serrana nascente
sabendo que a força ali depositada
iria, algum dia, inevitavelmente
(talvez até em uma tranquila praia tropical)
encontrar a imponderabilidade imensa do mar.

A Lua brilha
e por todas as coisas que me revelaram
algo de verdadeiro e saboroso
Sei que a vida é mais e pode mais

Sei que o que está contido
nos desencontros pelos quais me engano
é pouco perto do que se oferece
gratuitamente a todos aqueles
dispostos a estar de acordo
com aquilo que não é ilusão e desperdício

Tenho em meu peito a essa altura
uma dose (um tanto quanto histérica)
de resignação.

Sei que por aquilo que acredito e vivo
não posso esperar mais do “mundo”,
bem como da maioria das pessoas,
algo diferente de desprezo
e um pensamento disciplinadamente disposto
a me considerar simplesmente um vagabundo.

Como disse,
tenho uma consciência trágica
dessa nihilista reciprocidade:
De certa forma,
também não gosto do “mundo”
e se para eles
eu não passo de um vadio
(na melhor das hipóteses talentoso)
Eles para mim
são um bando de iludidos e desperdiçados
arrastando a miséria de suas horas

sem perceber que cada ser humano contém em si
o brilho de uma estrela
sem perceber que a cada conta a cada medo
ela se apaga
mais cedo

Não me importo sempre
com a minha arrogância.
Não posso
ser senão
a partir da paixão,
a qual me impulsiona
Rainha
mesmo nos momentos de desamor.

Por agora descansarei
na energia palavrosa de meus sonhos
Deixo o meu sim
e minhas melodias alegres de amanhecer
Para quando a madrugada tiver seduzido
as últimas trevas da noite.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

haikai da manhã no sol

Pássaros cantam

azul o céu nos cobre

Tudo Pelo sol

experimento do céu

A andorinha cruza
O frio ar de inverno

Sobre ela
imenso
E através de meus sonhos lúcidos
Uma nuvem púrpura sugerindo incenso
Cruza o claro azul
Infinito estendido sobre o dia

Lembro o que não sei
Distraído sobre o que
Esqueço em sintonia

Num mutante
momento do entardecer

a nuvem transmutou-se
em uma borboleta cinza

Que dissolvendo-se no amor
Celebra um naufrágio na maré do vento
onde o céu colore mais um experimento